domingo, 18 de novembro de 2012

50 anos de Primavera Silenciosa



        Em 1962, a bióloga norte-americana Rachel Carson (1907-1964) publicou uma das obras mais importantes do século 20. Primavera Silenciosa é considerado o primeiro alerta mundial contra os efeitos nocivos do uso de pesticidas na agricultura. O livro influenciou a criação da agência de proteção ambiental (Epa) nos Estados Unidos e inspirou movimentos ambientalistas em diversos países. O livro de Carson, porém, mais que um alerta contra os agrotóxicos, divulgou uma mensagem ética: a relação do homem com a natureza está no caminho errado e precisa mudar.

        Neste post, agrupei materiais garimpados na internet sobre Carson e sua mais famosa obra. Também cito aqui trechos de meu artigo publicado na Revista Ciência Hoje (Setembro/2012) sobre os 50 anos do livro. Nessa pequena amostragem, é possível perceber a enorme influência da crítica de Carson aos pesticidas. Primavera Silenciosa é uma leitura importantíssima ainda hoje, num contexto em que a sedução pela tecnologia tem provocado diminuição nas possibilidades de crítica e contestação. A concepção agrícola tecnificada expandiu-se pelo globo: os alimentos recebem cada vez mais agrotóxicos e aditivos químicos, causando contaminação do solo, dos rios, lagos, aquíferos e oceanos. É toda a VIDA que perde com isso: natureza e homem, cada vez mais artificiais, mais contaminados.


Capa da primeira edição do livro no Brasil, 1964.

        Quando decidiu pesquisar a fundo a questão dos agrotóxicos, a bióloga marinha Rachel Carson já era uma escritora conhecida nos Estados Unidos, graças ao sucesso de seus três livros sobre os oceanos: Sob o mar-vento (1941), O mar que nos cerca (1951) e Beira mar (1955).

        A trilogia permitiu que ela deixasse um emprego público na Secretaria de Pesca Federal para se dedicar totalmente à escrita, sua grande paixão. Mas Carson já se interessava pelo tema dos pesticidas desde 1945, quando biólogos norte-americanos começaram a estudar os efeitos do dicloro-difenil-tricloroetano (o inseticida DDT) no ambiente.

Rachel Carson e o ilustrador Robert Hines (1952) conduzindo pesquisa sobre biologia marinha (Foto em domínio público. US Fish and Wildlife Service).



Rachel Carson e o ilustrador Robert Hines (1955). Na foto, eles aparecem coletando material para panfletos educativos e para publicações técnicas oficiais, pouco antes da saída de Carson da Secretaria de Pesca Federal (Foto em domínio público. US Fish and Wildlife Service).

        Carson começou a escrever o livro em 1958. Ela sabia que o tema era polêmico e poderia provocar reação negativa dos fabricantes de pesticidas. Para precaver-se das acusações, pesquisou muito. Entrou em contato com cientistas de diferentes países, formando uma rede de colaboradores. O estudo sobre os pesticidas consumiu muita energia e, em meio à sua elaboração, a escritora descobriu que estava com câncer. O trabalho no livro chegou a ser suspenso, durante o tratamento com radioterapia, mas depois de quatro anos de muita dedicação, a primeira versão de Primavera Silenciosa foi publicada, em fascículos, em junho de 1962, na revista New Yorker. Em setembro do mesmo ano, foi lançado o livro.

         Em suas páginas, Carson denunciou vários efeitos negativos do uso do DDT em plantações e em campanhas de prevenção de doenças. As aplicações não matavam apenas as pragas (insetos, ervas daninhas, fungos etc.) às quais se dirigia, mas também muitas outras espécies, inclusive predadores naturais dessas pragas. 

        Esse pesticida, mostrou ela, atinge todo o ecossistema – solo, águas, fauna e flora – e entra na cadeia alimentar, chegando aos humanos, podendo causar câncer.


Embalagem de DDT

Propaganda sobre DDT nos EUA


Vídeo onde DDT é aplicado em crianças, enquanto comem e tomam banho. A voz da narradora é de Rachel Carson.


      O DDT foi banido de vários países, a começar por Hungria (1968), Noruega e Suécia (1970) e Alemanha e Estados Unidos (1972). Hoje, a Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes, assinada por cerca de 180 países, restringe o uso do composto a casos especiais de controle de vetores de doenças. No Brasil, a fabricação, importação, exportação, manutenção em estoque, comercialização e uso do DDT só foram proibidos em 2009.

        Usando uma linguagem que mesclava pesquisa rigorosa com habilidade literária, para aproximar o conhecimento científico do público leigo, Primavera silenciosa teve impacto instantâneo, ficou mais de dois anos nas listas dos livros mais vendidos e logo repercutiu mundialmente. 

        Na década de 1960, uma das faixas mais populares em quadrinhos nos jornais foi Peanuts, de Charles Schulz. Em jornais diários de 12 de novembro de 1962 e 20 de Fevereiro de 1963, ele retrata Carson como um modelo para as meninas

      



        São interessantes também os quadrinhos abaixo, desenhados por Gus Arriola (assinando como Frenda Mann), onde os insetos e pássaros homenageiam Carson em seu aniversário (27/05/1984):


Em 1981, o correio dos EUA homenageou Carson com este selo postal:



      Centros de pesquisa foram criados em homenagem a Rachel Carson. Neste ano, o Rachel Carson Center (Munique, Alemanha) publicou um volume especial de sua revista RCC Perspectives com ensaios e artigos para comemorar os 50 anos do livro, entre outras atividades. Rachel Carson's Silent Spring: Encounters and Legacies (Acesse a RCC Perspectives aqui).



      Já havia pessoas preocupadas com a devastação da natureza bem antes de Primavera Silenciosa, mas o movimento ecologista de caráter político certamente foi impulsionado pela publicação do livro. Ao criticar o uso dos agrotóxicos, Carson tratava um tema fundamental, a relação do homem com a natureza. Em um trecho do livro, ela pergunta: “O valor supremo é um mundo sem insetos, mesmo que seja um mundo estéril?”


      Biocides: Rachel Carson (Filme contando história de Carson e do Livro)
  
          Passados 50 anos, o livro de Rachel Carson permanece extremamente relevante. No contexto recente, em que o Brasil carrega o assustador título de maior consumidor de agrotóxicos do mundo, Primavera Silenciosa é atual e necessário. As palavras dessa pesquisadora e escritora podem nos ajudar a repensar nossos valores. Afinal, vale muito mais a pena ter primaveras bem barulhentas, nas quais possam ser ouvidos tanto os sons das pessoas quanto os sons da natureza.

Elenita Malta Pereira


10 comentários:

  1. Obrigada pelas informações. Seu trabalho está me ajudando na minha pesquisa sobre o histórica da educação ambiental no Brasil, esse sim é um ponto de partida para adentrar ao assunto.
    Parabéns pela matéria.
    Ana Ricarda

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    1. Oi, Ana, muito obrigada. Que prazer receber seu comentário, me sinto muito feliz em poder ajudar no seu trabalho! Entre em contato sempre que precisar. Grande abraço. Elenita

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  2. Olá Elenita. Ótima síntese de informações sobre a obra de Carson, sua repercussão ao longo dos anos e impacto para a nossa e gerações futuras. Estou trabalhando sobre a conscientização ambiental com alunos do Ensino Fundamental e seu texto é bastante esclarecedor, deixando para aqueles que não conhecem, uma curiosidade sobre a obra na íntegra. Parabéns.

    Abraço.

    Junnderson Nunes

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    Respostas
    1. Olá, Junnderson, muito obrigada! Que bom receber teu feedback e que maravilha saber que o texto está ajudando no ensino desse tema tão importante!
      Se quiser acessar o livro, está disponível online nesse outro post aqui no blog: http://avozdaprimavera.blogspot.com.br/2014/03/primavera-silenciosa-livro-gratis.html
      E volte sempre ao blog, é muito bem vindo!
      Abração, Elenita

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    2. De fato, Elenita. É um tema de alta importância apesar de atualmente levarem para o lado de um "modismo" em que tudo deve ser ecologicamente correto porém disfarçado de um alto interesse econômico. Gostaria de pedir autorização para utilização de parte do seu texto em atividades, claro, dando o devido crédito e endereço do seu blog para os alunos acessarem se precisarem. No que diz respeito ao livro, eu já o conhecia porém, seu texto foi perfeito na linguagem para fazê-los compreender melhor a temática e a importância da obra.

      Abração.

      Junnderson Nunes

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    3. Junnderson, pode usar este e qualquer outro texto do blog, sem restrições, porém sempre citando a fonte, o crédito. Sim, será ótimo receber a visita de seus alunos. Mas fiquei curiosa, de onde você é? Você dá aulas de que matéria? E qual a série de seus alunos? Sempre procuro usar uma linguagem acessível, adequada aos mais diferentes públicos, teu feedback quanto a isso também é muito importante! Sobre o tema dos agrotóxicos aqui no blog tem vários vídeos e filmes. Se quiseres passar para teus alunos, como complemento da matéria são interessantes, por exemplo, 'O veneno está na mesa' e 'Pontal do Buriti', sobre uma escola que foi banhada por agrotóxicos em Goiás. Bom trabalho, e qualquer coisa, estou às ordens. Abraço.

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    4. Olá Elenita. Grato pela autorização. Sou de Recife - PE; licenciatura em Geografia e especialização em Educação Ambiental. As aulas especificamente que citei ter havido interesse no seu texto foi para turmas do Ensino Fundamental, especialmente o 8º ano. Boa parte dos alunos não conheciam Carson e sua história com a temática ambiental. Vou conferir outros conteúdos do seu blog e desde já deixo mais uma vez meu agradecimento e desejo de sucesso com seu trabalho. Abração.

      Junnderson Nunes

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  3. Olá Elenita,

    Gostei muito dos seus comentários, tenho tido muitas indagações sobre os rumos que a cultura humana vem seguindo.
    Entendo que hoje não vivemos mais épocas de mudanças, mas sim uma mudança de época.
    Esta ordem de natureza em que nos manifestamos, vem sinalizando a muito tempo nossos pecados, como na raiz da palavra latina pecare, sair fora do caminho ou a raiz hebraica hata, errar o alvo. Porém hoje o sinalizador parou e transformou-se em um limitador.
    Em Natureza Silenciosa, Rachel Carson foi alem dos limites da razão, tocou nossos corações e despertou o espirito da terra, assim como uma profecia Maia do Popol Vuh.
    Esse livro, alertou o século XX a rever a necessária relação tecnológica que temos com a natureza, e como consequência estamos revendo a finalidade da existência humana, possivelmente em busca de um alvo que se expressa em um simples caminho, no Tao como diziam os taoitas.

    Abraco.

    Roberto São Thiago

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  4. Parabéns pela matéria muito interessante, ótimo trabalho!

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