segunda-feira, 13 de junho de 2016

As libertadoras da América

Mulheres nas independências da América latina

Juana Azurdy, Bolívia

A temática das independências tem importância capital na historiografia latino americana do século XIX, que estudou os fatores externos e internos que levaram à emancipação dos diferentes países, exaltando os "heróis" que lideraram esse processo, tidos como "libertadores", como Simon Bolívar, José de San Martín, Miguel Hidalgo e José Maria Morelos, entre outros. São sempre  destacados os homens que comandaram exércitos, assinaram acordos, enfim, na maior parte dos estudos, mesmo os mais atuais, são eles os protagonistas das independências. Infelizmente, as principais obras sobre o tema quase não fazem referência à participação política feminina nesses eventos. 

Entretanto, como destacou a professora Maria Lígia Prado, em seu texto "A participação das mulheres nas lutas pela independência da América Latina" as mulheres também marcaram importante presença no processo das independências. Pesquisando em livros e dicionários biográficos, escritos por homens, ela encontrou evidências muito interessantes sobre uma participação bastante ativa de inúmeras mulheres, em diferentes países latinos. 

Para Prado (2004), esse silêncio em torno da atuação feminina "nos remete à imagem prevalecente da mulher como criatura pouco interessada e nada participante nas questões políticas". A historiadora aponta que esse apagamento, ou mesmo a forma como são lembradas, quando são, revela preconceitos bastante comuns em relação às mulheres. Seu lugar, seu domínio, é o privado, do lar. Segundo as narrativas sobre elas, sua atuação foi movida pelo "amor à Pátria", e é visto como algo temporário, depois das lutas, elas deviam voltar para casa e ser boas mães e esposas. Mas muitas delas queriam muito mais do que isso, ainda no século XIX. 

As libertadoras de Coronilla

Algumas pegaram em armas, lutando lado a lado dos homens como soldadas; outras acompanhavam as tropas; outras ofereciam suas casas para reunir os rebeldes; havia as que agiam como mensageiras, escreviam cartas, etc. 

Neste post, vamos conhecer um pouquinho sobre algumas dessas mulheres, que chamamos de "as libertadoras da América".  Sobre algumas delas, há vídeos no Youtube.

Manuela Eras Y Gandarillas e Josefa Montesinos (Cochabamba, Bolívia)
As duas participaram de várias ações armadas, inclusive um ataque ao quartel dos veteranos realistas em 1815. 



Manuela Pedraza (Buenos Aires, Argentina)
Lutou ao lado do marido contra a invasão inglesa de Buenos Aires, em 1806; recebeu o grau de tenente. 


María Remedios del Valle (Tucuman, Argentina) 
Fazia parte dos exércitos de San Martín no Peru e participou de muitas batalhas, entre elas, a importante batalha de Boyacá, em 1819, na Colômbia.


Juana Azurduy de Padilha (Bolívia)
Junto com o marido, liderou um grupo de guerrilheiros. Participou de 23 ações armadas em lutas pela independência, algumas como comandante das tropas. Ganhou fama por sua coragem e habilidade, chegando a patente de tenente-coronel. 


Manela Saenz (Equador)
Foi amante de Bolívar nos seus últimos oito anos de vida (1822-30). Cuidou dos arquivos de Bolívar, escreveu cartas  que ele ditava e salvou sua vida duas vezes. 

 


Leona Vicario (México)
Lutou nas tropas de Morelos. Também ajudava os insurgentes com dinheiro e informações. Após a independência, suas atividades políticas não cessaram, tendo uma longa atuação na vida pública mexicana. 


Policarpa Salavarrieta, La Pola (Colômbia)
Era costureira, simpática à causa da independência. Colhia informações das casas de pessoas ricas que frequentava, como costureira, e enviava aos revoltosos. Por sua atuação, foi condenada a morte por fuzilamento. 
A rede de TV Colombiana RCN produziu uma novela sobre La Pola. Abaixo o primeiro capítulo:


Maria Quitéria (Brasil)
O Brasil também tem sua libertadora, a baiana Maria Quitéria de Jesus Medeiros. É considerada a primeira mulher a assentar praça numa unidade militar das Forças Armadas Brasileiras e a primeira mulher a entrar em combate pelo Brasil, em 1823. 


Águeda Monasterio (Chile)
Em sua casa se reuniam muitos dos que compartilhavam as ideias de libertação das colônias espanholas. Ela e sua filha de quinze anos escreviam cartas e passavam informações aos insurgentes. Quando descoberta, foi condenada a forca, mas antes teve que assistir cortarem a mão direita de sua filha; na última hora, foi perdoada, mas morreu em seguida, vítima de uma doença contraída na prisão. 

Simona Josefa Manzaneda (Bolívia)
Era artesã, mestiça e pobre. Desempenhou ativo papel na revolta de La Paz pela independência, em 1809, organizando os vecinos de seu bairro, que dirigiram-se armados à praça das Armas. O movimento foi derrotado e vários líderes foram executados; Simona conseguiu fugir. Porém em 1814, em nova atividade revolucionária, ela foi presa e submetida a julgamento sumário e morte cruel (teve a cabeça raspada, foi exibida nua montada num burrico, na rua, e, além disso, flagelada e fuzilada pelas costas em praça pública). 
Prado acredita que a punição tão infame está relacionada com sua condição social. Em geral, aos pobres e mestiços, eram imputados os piores castigos. 

Além dessas libertadoras que mencionamos acima, existem muitas outras. Abaixo, deixo vídeos que contém narrativas sobre algumas delas. 

Mujeres del bicentenário na Argentina:

Mujeres en el bicentenário no Chile:

Mujeres en el Bicentenário no México:

Ao contrário do que a historiografia - escrita por homens durante muito tempo - mostra, a participação das mulheres na vida política da América foi bastante intensa. O episódio das independências mostra isso... Com o avanço das pesquisas, certamente, ouviremos falar de cada vez mais protagonismo feminino na nossa história. 

Para saber mais, leia:
PRADO, Maria Lígia. A participação das mulheres nas lutas pela independência da América Latina. In: PRADO, Maria Lígia. América Latina no século XIX: Tramas, telas e textos. São Paulo: Editora da USP, 2004. 


Um comentário:

  1. Interessante. Realmente é difícil ver estudos sobre a atuação das mulheres nesse período. No primeiro momento pós-independência eu lembro da Encarnación Ezcurra, a esposa de Juan Manuel Rosas. Atuou decisivamente na política Argentina no período Rosas (1835-1852). Aqui tem um documentário interessante sobre: https://www.youtube.com/watch?v=MIn9w4tYPYw

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